sábado, 3 de outubro de 2015

Resenha - Deserto de Ossos - Chris Bohjalian

Deserto de Ossos
Capa Comum: 344
Autor: Chris Bohjalian
Editora: Companhia Editora Nacional





[Livro cedido pela Companhia Editora 
Nacional para resenha]
Em 1915, o massacre de milhares de armênios, perpetrado pelos turcos, tingiu para sempre as areias do deserto sírio com o sangue e os ossos de uma civilização inteira. Em meio a esse cenário desolador, Armen Petrosian, um jovem engenheiro armênio que perdeu a esposa e a filha, e Elizabeth Endicott, uma rica jovem americana, se apaixonam. Mas antes de assumir o que sentem, eles se separam quando Armen se alista no exército britânico e Elizabeth vai trabalhar como voluntária. Ambos testemunharão atrocidades que os marcarão para sempre antes que possam se reencontrar. Quase um século depois, às vésperas do centenário do genocídio, a neta do casal, Laura, embarca em uma jornada pela história de sua família, descobrindo uma história de amor, perda e um delicado segredo que ficou soterrado por gerações.

Nunca tinha lido nada de Chris Bohjalian e reconheço que fiquei estarrecida. O homem escreve além da conta! Que história passional, um conteúdo árduo que ele habilidosamente relata com tanta competência que faz do terror da selvageria e destruição, um encandeamento de relações humanas. Se você me interrogar perguntando se o livro tem violência, passagens odiosas e verdades incontestáveis posso te afirmar sem sombra de dúvida que sim, mas em contrapartida seus personagens bem construídos não são apenas letras em um papel, são protagonistas reais que atestam de maneira indiscutível da desumanidade do homem que afirma ser um animal racional.
Entre os anos de 1915 e 1923, por obra do Império Otomano, um número impressionante de armênios foi deportado à força de dentro do território imperial e também outro número não menos impressionante foi massacrado pelo governo. Tudo isto ocorreu com maior intensidade durante o período em que o Império Otomano foi governado pelos chamados Jovens Turcos, que durou de 1915 a 1917. A ideia clara e terrivelmente cruel era a de simplesmente exterminar e eliminar qualquer presença, tanto física, quanto cultural dos armênios de dentro do território do Império Otomano. Além disto, também se pretendia acabar com qualquer influência econômica deste povo, bem como também acabar com qualquer tipo de influência religiosa que ele pudesse exercer dentro dos domínios otomanos.
Deserto de Ossos nos conta duas histórias bem peculiares. Uma se passa na década de 1915, em plena Primeira Guerra Mundial, onde Elizabeth Endicott, uma rica jovem americana e seu pai viajaram para a cidade síria de Alepo, em uma incubência apadrinhada por um grupo americano, os Amigos da Armênia. Eles seguem em uma tentativa de levar comida e provisões médicas para os refugiados, aonde Elisabeth também tem a missão de registrar o que vê, além de voluntariar-se ao hospital tendo em vista que ela tinha feito curso de enfermagem e detinha capacidade real de ajuda.  Seu auxilio seria bem vindo, ela estava no local para onde milhares de refugiados armênios ficavam quando chegavam da Síria, embora eles estivessem quase mortos quando surgiam, padecendo de doenças e sendo apenas um espctro das pessoas que um dia já foram. Nesse clima sufocante, Elisabeth Endicott e Armem Petrosian se conhecem e iniciam um romance; já na outra parte da história, no período contemporâneo, Laura Petrosian, neta do casal, está fazendo uma pesquisa da linhagem da família e divisa a vida dos avós e as provações enfrentadas por eles durante a primeira guerra.
Armênios marchando longas distâncias para local em que seriam massacrados
A primeira parte da narrativa foi a que mais me sensibilizou. A sonhadora e apaixonada Elizabeth, na esperança de fazer parte da mudança e ser uma parcela atuante, cai nas garras do sofrimento da nação armênia e em meio a tanta angústia e flagelos encontra o amor em um genheiro que perdeu esposa e filha no massacre, Armen Petrosian.

Elizabeth encontra além do amor, mulheres sedentas e nuas, somente couro e osso, e a partir desta situação agoniante nossa jovem Elizabeth cresce como pessoa. Ela viaja em circunstâncias rudimentares numa tentativa de auxiliar ajudar os que foram conduzidos ao deserto para desaperer no mar da fome e sede. A apresentação asustadora e inesquecível dos fatos, tão pouco debatido e divulgado do genocídio armênio e sua importância nas gerações é surpreendentemente gritante e sufocante.
Mulheres e crianças vítimas do genocídio
Sei que muitos já estão desistindo da leitura e minha resenha não está ajudando em nada, afinal esse livro em nada lembra uma leitura tranquila de fim de tarde, tamanha a enormidade dos fatos, mas digo a vocês que criem coragem e se deixem tomar pela narrativa de Bohjalian. Ele conta a história de uma maneira que embora a violência e as mortes terríveis de pessoas nas mais diversas idades e gêneros, não trazem consigo apenas o estigma da morte, carrega também a bondade, o amor e a esperança.

Na segunda parte o narrador em primeira pessoa é Laura Petrosian, uma garota moderna, buscando entender sua herança familiar. Ela é escritora e reconta a história de seus avôs quase 100 anos depois, já próximo do centenário do genocídio, e conforme ela vai vislumbrando os episódios que se passaram com os avós ela vai se tornando enlouquecida com tanta informação e escreve um livro ímpar.
Meu marido não conhecia os detalhes da história deles até então; eu também não. Uma vez que descobrimos a verdade, anos mais tarde, ele mudaria de ideia sobre se eu tinha autoridade moral para explorar o horror particular de meus avós. Porém, eu já estava obcecada pela história  e ninguém podia me parar.
Mil palmas para Bohjalian, por sua ousadia, coragem e capacidade de escrever uma história tão verdadeira com personagens que possuem a capacidade de tocar a alma. Deserto de Ossos é um livro que irá fazer com que você tenha vontade de lutar por paz, amor e justiça e desejar que nenhuma desgraça alcance as pessoas. Leitura mais do que recomendada!
Mulheres rezam em memorial aos armênios vítimas dos massacres pelo Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial 


30 comentários:

  1. Só o titulo já deixa muito a desejar, e parece que o conteúdo do livro cumpre, adorei a resenha e realmente esse livro parece ser perfeito! <3

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    1. Obrigada João! Leia assim que puder! Vale a pena! Beijos!

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  2. Oi, tudo bem?
    Uau sua resenha ficou incrível parabéns!
    Gosto muito de livros que se passam em épocas de guerra e esse parece ser um ótimo livro apesar de ser uma leitura densa, e difícil!
    Fiquei curiosa com essa história e vou adicionar o livro em minha wish para ler futuramente.

    Beijo :*
    http://www.livrosesonhos.com/

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    1. Fico feliz que esteja na sua lista de desejados! Obrigada pelo elogio! Fiquei cheia de pernas...kkkk...Beijos!

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  3. Sua resenha está muito boa, mas esse gênero não me chama a atenção.
    é uma leitura que deixo passar.
    beijos
    www.estudiodecriacaoblog.blogspot.com

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    1. Mesmo assim obrigada pela participação! Beijos!

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  4. oie como vai?
    sua resenha ficou muito boa e entendo bem esse sentimento de desejo por melhorias e mais amor no mundo, li um livro esse ano que me passou bem essa sensação.

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    1. Obrigada querida! Espera que um dia você se renda a leitura! Beijos!

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  5. Deve realmente ser uma história forte e envolvente, não duvido. ainda não tive o prazer de ler a obra, mas fiquei interessada.

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    1. Quem sabe você leia e venha aqui me contar o que achou! Beijos!

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  6. Olá, eu não conhecia o livro ainda mas confesso que não fiquei interessada nele, talvez por não ser o tipo de livro que estou acostumada a ler, mas quem sabe mais para frente dou uma chance a ele :D

    Beijos

    http://www.oteoremadaleitura.com/

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    1. Obrigada pela participação Ketrin! Beijos!

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  7. OIe!
    Apesar de você ter tecido elogios a escrita do autor, não fiquei interessada pela história. Confesso que não seria um livro que me agradaria, não assim a primeira vista.
    Beijos

    LuMartinho | Face

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  8. Nem sempre o livro que marca a gente é aquela leitura tranquila de fim de tarde, como você disse. Às vezes é preciso chocar para chamar a atenção. Esse livro chamou muito a minha. Sua resenha ficou fantástica. Eu já tinha lido outras e já tinha o livro anotado para ler, mas sua resenha reforçou, e muito, minha vontade! Parabéns!

    Infinitos Livros

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    1. Nossa Samy são elogios como esse que tornam meu dia melhor! Muito obrigada pela participação! Beijos!

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  9. Eu nunca havia ouvido falar desse livro, mas confesso que seus muitos elogios à obra e à escrita do autor me instigaram muito. Não é um livro pelo qual eu me empolgaria para ler em um primeiro momento, mas acredito que, caso tivesse a oportunidade de ler, ficaria muito animada com o decorrer da história.

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    1. Dá uma chance...quem sabe você não fique tão tocada quanto eu fiquei! Beijos!

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  10. Olá Nadya, esse livro parece ser muito bom, apesar de ter alguns fatos duros e triste parece que o autor soube escrever de uma forma a conquistar o leitor *--* Espero poder lê-lo em breve.

    Visite "Meu Mundo, Meu Estilo"

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    1. Obrigada Jéssica! Irei visitar sim! Grande beijo!

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  11. Ah essa capa não ficou muito boa, parece mais coisa de aventura e as cores não ficaram lá muito legais.
    Para um livro tão denso como esse certamente deveriam ter escolhido uma capa melhor.
    A história se parece com alguns livros que li, e que gostei muito. E essa sinopse me fisgou.
    O modo como você falou do livro me deixou bastante interessada para lê-lo, se eu tiver a oportunidade, certamente o lerei.

    http://ocasulodasletras.blogspot.com.br/

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    1. Depois me conta o que você achou? Beijos!

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  12. Oi
    Não sei se leria esse livro, achei que deve ser meio chocante. Não gosto muito de ler sobre esses temas
    Bju

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    1. Tem que ter coração de aço einh? Beijos!

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  13. A leitura parece ser frénetica! Haha, sua resenha também está muito boa! Gostei da premissa, esse estilo do autor de contar terror, vilência e etc, achei muito legal! Já quero!!

    Abraços e até!

    lendoferozmente.blogspot.com.br

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  14. eu gostei do livro mas de certa forma eu achei que faltou algo ha parte, não sei se leria de novo, mas adoraria conhcer outrras obras desse gênero.

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    1. Oi Leticia, é difícil abordar temas tão fortes! Mas gostei muito! Um grande beijo!

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  15. Olá, parece ser um livro cheio de sofrimentos. Até gosto de ler livro deste tipo mas no momento deixaria passar. Adorei sua resenha
    Angel Sakura
    www.euinsisto.com.br

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